Notícia

Cientistas descobrem nova classe de neurônios envolvidos na lembrança de rostos

A descoberta da região do polo temporal no centro do reconhecimento facial significa que os pesquisadores podem em breve começar a investigar como essas células codificam rostos familiares

Dra. Sofia Landi

Fonte

Universidade Rockefeller

Data

sábado, 3 julho 2021 10:50

Áreas

Neurociências.

Os cientistas há muito procuram em vão por uma classe de células cerebrais que possa explicar o lampejo de reconhecimento que sentimos quando vemos um rosto muito familiar, como o de nossas avós. Mas o proposto ‘neurônio da avó’ – uma única célula na encruzilhada da percepção sensorial e da memória, capaz de priorizar um rosto importante – permaneceu indefinido.

Agora, uma nova pesquisa revela uma classe de neurônios na região do polo temporal do cérebro que liga a percepção facial à memória de longo prazo. Não é bem o neurônio apócrifo da avó – em vez de uma única célula, é uma população de células que lembram coletivamente o ‘rosto da avó’. As descobertas, publicadas na revista Science, são as primeiras a explicar como os cérebros armazenam os rostos dos entes queridos.

“Quando eu estava começando na neurociência, se você quisesse ridicularizar o argumento de alguém, diria ‘apenas mais um neurônio da avó’- ou seja, uma hipótese que não poderia existir”, disse o Dr. Winrich Freiwald, chefe do Laboratório de Sistemas Neurais da Universidade Rockefeller, nos Estados Unidos. “Agora, em um canto obscuro e pouco estudado do cérebro, encontramos algo o mais próximo possível de um neurônio da avó: células capazes de ligar a percepção do rosto à memória.”

Será que eu já vi esse rosto antes?

A ideia de um ‘neurônio da avó’ apareceu pela primeira vez na década de 1960 como uma célula cerebral teórica que codificaria um conceito específico e complexo, por si só. Um neurônio para a memória da avó, outro para lembrar a mãe e assim por diante. Em seu cerne, a noção de uma razão de um para um entre células cerebrais e objetos ou conceitos foi uma tentativa de resolver o mistério de como o cérebro combina o que vemos com nossas memórias de longo prazo.

Desde então, os cientistas descobriram muitos neurônios sensoriais especializados no processamento de informações faciais e outras tantas células de memória dedicadas ao armazenamento de dados de encontros pessoais. Mas um ‘neurônio da avó’ – ou mesmo uma célula híbrida capaz de ligar a visão à memória – nunca surgiu. “A expectativa é que já tivéssemos resolvido isso”, disse o Dr. Freiwald. “Longe disso! Não tínhamos um conhecimento claro de onde e como o cérebro processa rostos familiares. ”

Anteriormente, o pesquisador e colegas descobriram que uma pequena área na região do polo temporal do cérebro pode estar envolvida no reconhecimento facial. Portanto, a equipe usou imagens de ressonância magnética funcional como um guia para ampliar a região do polo temporal de dois macacos rhesus e gravou os sinais elétricos dos neurônios enquanto os macacos observavam imagens de rostos familiares (que eles tinham visto pessoalmente) e rostos desconhecidos que eles só tinham visto virtualmente, em uma tela.

A equipe descobriu que os neurônios na região do polo temporal são altamente seletivos, respondendo a rostos que os indivíduos teriam visto antes com mais intensidade do que os desconhecidos. E os neurônios eram rápidos – discriminando entre rostos conhecidos e desconhecidos imediatamente após o processamento da imagem.

Curiosamente, essas células responderam três vezes mais fortemente a rostos familiares do que a rostos desconhecidos, embora os indivíduos tivessem de fato visto os rostos desconhecidos muitas vezes virtualmente, nas telas. “Isso pode apontar para a importância de conhecer alguém pessoalmente”, disse a Dra. Sofia Landi, neurocientista e primeira autora do artigo. “Dada a tendência atual de se tornarem virtuais, é importante notar que os rostos que vimos em uma tela podem não evocar a mesma atividade neuronal que os rostos que encontramos pessoalmente.”

A descoberta da região do polo temporal no centro do reconhecimento facial significa que os pesquisadores podem em breve começar a investigar como essas células codificam rostos familiares. “Agora podemos perguntar como essa região está conectada às outras partes do cérebro e o que acontece quando um novo rosto aparece. E, claro, podemos começar a explorar como isso funciona no cérebro humano”, ressaltou o Dr. Freiwald.

No futuro, as descobertas também podem ter implicações clínicas para pessoas que sofrem de prosopagnosia, ou ‘cegueira de rostos’, uma condição que isola socialmente a pessoa e que afeta cerca de um por cento da população. “Pessoas que não reconhecem rostos costumam sofrer de depressão. Pode ser debilitante, porque nos piores casos eles não conseguem nem reconhecer parentes próximos. Essa descoberta pode um dia nos ajudar a planejar estratégias para ajudá-los”, concluiu o Dr. Winrich Freiwald.

Acesse o resumo do artigo científico (em inglês).

Acesse a notícia completa na página da Universidade Rockefeller (em inglês).

Fonte: Katherine Fenz, Universidade Rockefeller. Imagem: Área (vermelho/amarelo) no polo temporal do cérebro é especializada no reconhecimento de rostos familiares. Fonte: Dra. Sofia Landi.

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