Efeitos do consumo materno de cafeína no desenvolvimento dos filhos

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Informações
Data no Tech4Health: 10 de janeiro de 2017


Fonte
UFRGS Ciência
Data
10/01/2017
Áreas
Alimentação e Nutrição. Pediatria. Saúde Pública.

Notícia


Algumas pessoas preferem café. Outras, chás. Ainda tem quem opte pelos refrigerantes de cola. São inúmeros os métodos utilizados para aumentar o foco e a concentração em uma rotina cada vez mais turbulenta e cansativa. Mas o que esses produtos têm em comum? A cafeína.

Quando consumimos alimentos com um teor de cafeína considerável, ficamos mais atentos e conseguimos trabalhar melhor – uma conquista para quem precisa manter um bom rendimento durante muito tempo. Isso acontece porque em menos de 20 minutos a cafeína chega às células do corpo, aumentando a influência do neurotransmissor dopamina, que é o precursor natural de estimulantes do sistema nervoso. Em falta, a dopamina pode causar depressão, já em excesso, causa aceleração.

Se as pessoas já devem ficar atentas à quantidade de cafeína que ingerem diariamente, as restrições aumentam ainda mais quando se trata de gestantes. De acordo com a nutricionista especialista na área materno infantil Michele Drehmer, o cafezinho, refrigerantes, chás, chimarrão, energéticos e inclusive os chocolates devem ser ingeridos respeitando uma cota diária de consumo. “Existe uma recomendação de consumo máximo de 300 mg de cafeína ao dia durante a gravidez, segundo o Instituto de Medicina Americano, que é seguida aqui no Brasil também”, explica Michele. A nutricionista ainda faz uma simulação de consumo. “Para se ter uma ideia do que representa, podemos citar que quatro copinhos de café (50 ml), uma lata de Coca-Cola (355 ml) e um pedaço de chocolate ao leite (60g) somam 297 mg de cafeína”.

A nutricionista explica que estudos experimentais realizados em animais mostraram que a cafeína passa pela membrana placentária e pode aumentar o risco de malformações fetais e levar ao aborto espontâneo. Michele destaca que em humanos não é possível medir os efeitos do consumo por meio de estudos de intervenção por questões éticas, visto que uma gestante nunca será exposta ao consumo de cafeína. As evidências a que se tem acesso hoje são baseadas apenas em estudos observacionais, estes que comprovam o aumento do risco para o bebê pelo excesso de cafeína na gravidez. “Recente revisão sistemática mostrou que a maior ingestão de cafeína está associada a um aumento de aborto espontâneo, à morte fetal, ao baixo peso ao nascer e ao recém-nascido pequeno para idade gestacional”, afirma Michele.

A nutricionista Thamíris Santos de Medeiros trouxe em sua dissertação um estudo sobre o impacto do consumo materno de cafeína durante a gestação nas medidas antropométricas – peso, comprimento e dobras cutâneas – dos filhos nos primeiros meses de vida.

Desde a gestação, a composição corporal do bebê é um marcador do estado de saúde, além da avaliação do estado nutricional na primeira infância, que também é essencial para o diagnóstico da saúde da criança, incluindo seu crescimento e desenvolvimento. Nisso, incluem-se determinados parâmetros antropométricos desde os primeiros meses de vida, com destaque para o peso e o comprimento. Outro fator que também entra nessa categoria são os indicadores de adiposidade subcutânea, que, através das dobras da pele, analisam a quantidade de gordura do corpo.

Resultados

Quanto ao consumo de cafeína, houve uma diferença significativa entre os grupos estudados. Confirmou-se o fato de o tabagismo estar associado ao maior consumo de cafeína, tendo esse grupo consumido até 150,3 mg/dia, o maior valor entre todos os grupos. O alto consumo também se destacou no grupo de crianças nascidas pequenas para idade gestacional – 128,2 mg/dia –, o que mostra a relação entre o baixo peso ao nascer e o consumo de cafeína na gravidez. Os grupos de mães diabéticas, hipertensas e de controle consumiram 96,4, 136,6 e 91,3 mg/dia, respectivamente.

Em relação às medidas antropométricas, a média de peso ao nascer foi de 3,1 quilos e a de comprimento foi de 48,5 centímetros. O estudo comprovou que os filhos de mulheres diabéticas apresentaram peso de nascimento significativamente maior do que as crianças pertencentes a outros grupos. Isso porque são mais propensos a desenvolverem macrossomia – excesso de peso no nascimento –, diferente das crianças com restrição de crescimento intrauterino (RCIU), que apresentam menor peso e menor comprimento ao nascer. O estudo destacou a diferença expressiva de peso e comprimento das crianças que nasceram pequenas para idade gestacional, com até um quilo e 1,9 centímetros a menos que outros grupos.

O estudo mostra que somente no grupo-controle foi comprovada interferência nas medidas antropométricas a partir do consumo materno de cafeína. A pesquisadora observa que, do nascimento ao terceiro mês de vida, a velocidade de crescimento é superior à que ocorre entre o terceiro e o sexto mês, o que pode refletir nos resultados de acúmulo de gordura pela criança, visível apenas nos primeiros meses de idade. Ela destaca que os resultados desse trabalho fornecem subsídios para a investigação da hipótese do desenvolvimento do excesso de peso na infância em virtude do alto consumo de cafeína.

No grupo de mães diabéticas, na comparação entre filhos de mulheres consumidoras e não consumidoras de café, não houve diferença significativa entre peso, comprimento e dobras cutâneas, tampouco entre as médias das medidas antropométricas aos três e aos seis meses de idade.

Thamíris destaca que os primeiros mil dias de vida são uma fase fundamental para o desenvolvimento do ser humano e que, por isso, ainda são necessárias pesquisas que avaliem as consequências de certos hábitos durante a gestação na vida dos filhos. “É um período em que muitas coisas estão se formando no corpo do bebê”, afirma.

A pesquisadora está otimista com o que seu estudo pode proporcionar para a sociedade: “A minha expectativa é de que esse trabalho chame a atenção de pessoas que trabalham com isso”. Thamíris diz que é fundamental que esse tipo de estudo receba atenção e, no futuro, tenha um peso nos cuidados com a saúde da gestante. “Poderia virar uma observação na prática clínica, assim como não é recomendado fumar ou ingerir álcool durante a gravidez”, destaca.

Acesse a reportagem completa do UFRGS Ciência.

Fonte: Amanda Hamermüller, UFRGS Ciência. Imagem: Pixabay.